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Publicado em 11/01/2018

Abertura de dados de clientes impõe desafio a bancos (Valor Econômico)

Imagine acessar a conta do seu banco no aplicativo para o celular de um concorrente. Ou reunir todas as suas movimentações de crédito ou débito de diferentes instituições em um único cartão. Essa realidade pode em breve fazer parte do dia-a-dia dos clientes de serviços financeiros com o avanço do chamado “open banking”, uma nova promessa de revolução no setor.

Em linhas gerais, a tecnologia possibilita a terceiros acessar e até mesmo movimentar recursos de contas bancárias – desde que com a autorização do cliente. O princípio é que os dados financeiros são dos usuários, e não das instituições financeiras.

A partir deste mês, os bancos europeus serão obrigados a abrir suas plataformas, usando para isso as chamadas APIs (interface de programação de aplicativos, na sigla em inglês). A mudança, que enfrentou forte resistência nas instituições, deve esquentar ainda mais a disputa com as novas empresas de tecnologia financeira, as chamadas fintechs.

No Brasil, não há regulamentação específica, mas alguns bancos começam a testar aplicações baseadas no conceito. O Banco Central já sinalizou que o modelo europeu pode servir de referência para uma eventual proposta de regulação local. Procurado pelo Valor, o BC afirmou que o open banking é um tema de interesse devido a seu “potencial impacto na oferta de novos serviços financeiros e sobre a concorrência”.

Para especialistas, o mercado brasileiro reúne condições ideais para o avanço do open banking: elevado grau de digitalização dos serviços e um sistema financeiro altamente concentrado.

Um exemplo de potencial aplicação do open banking é o das fintechs que atuam na concessão de crédito. Uma das principais barreiras a essas empresas hoje é o pouco conhecimento dos clientes, o que aumenta o risco de crédito – e a taxa de juros da operação. Com a possibilidade de acessar o histórico bancário do potencial tomador, a tendência é que a fintech consiga oferecer empréstimos com taxas menores que as dos bancos, que ainda precisam arcar com altos custos relacionados ao legado de agências físicas.

Como toda ameaça, há também oportunidades para as instituições financeiras. O open banking está para os bancos como os chamados serviços “over the top” – como WhatsApp, Facebook e afins – estão para as operadoras de telefonia. Embora tenha relegado o tradicional SMS à irrelevância, esse tipo de aplicação fez explodir a receita das teles com dados, que apenas engatinhava em meados de 2000.

Por isso mesmo, bancos de todo o mundo estão debruçados sobre o tema estudando qual o melhor caminho. Não faltam relatórios de consultorias sugerindo direções. Um deles, da Accenture, afirma que as instituições financeiras têm quatro modelos possíveis: tornar-se um provedor de infraestrutura; usar APIs externas para melhorar a experiência de seus clientes; desenvolver APIs internas e liberá-las de forma controlada para acelerar a inovação; abrir totalmente suas plataformas.

A demanda de clientes do setor financeiro por informações sobre open banking aumentou muito no último ano, afirma Kleber Bacili, executivo-chefe da Sensedia, empresa com sede em Campinas que desenvolve APIs, a interface que facilita o compartilhamento de informações entre os diferentes sistemas.

A procura vem principalmente de bancos pequenos e médios interessados em buscar novos canais de distribuição. A Sensedia trabalhou no desenvolvimento das APIs do Banco Original. Lançada em setembro de 2016, a plataforma permite o acesso a informações da conta corrente e da posição de investimentos de clientes, além de usos mais básicos, como localização de caixas eletrônicos.

Para Bacili, as possibilidades de uso das APIs são enormes. A mais simples é a integração das informações de diversas contas em um único aplicativo, algo atrativo especialmente para empresas. No entanto, permitir apenas esse tipo de facilidade não é o que vai levar as grandes instituições financeiras se lançar no open banking. “Só conveniência não vai fazer um gigante se movimentar”, afirma.

O que interessa aos bancos é participar das chamadas “jornadas digitais” da vida de seus clientes, como o planejamento de uma viagem. Com uma API de um banco em um site de reserva de passagens e hotéis, por exemplo, a instituição poderia rapidamente oferecer seguro de viagem e até mesmo crédito. Sem essa conexão, o banco levaria muito mais tempo para “enxergar” a viagem e oferecer produtos a esse cliente.

Gigantes da tecnologia como Google e Amazon são apontados como principais exemplos de sucesso no uso da arquitetura aberta para promover seus próprios produtos. Uber e Airbnb, por exemplo, se valem de APIs do Google para oferecer mapas aos usuários.

No setor bancário, uma das principais iniciativas até agora veio do britânico HSBC, que lançou um sistema de internet banking que permite aos clientes no Reino Unido acessarem contas de outras instituições financeiras. Com a obrigatoriedade do open banking na Europa a partir deste mês, a expectativa é que proliferem iniciativas do tipo, inclusive por fintechs.

“No futuro, o cliente poderá escolher não só o banco em que deseja manter a conta como o internet banking que deseja movimentá-la”, diz Ricardo Taveira, sócio da Quanto, empresa que criou uma plataforma para conectar os bancos aos interessados em oferecer sistemas de open banking.

Mesmo sem a obrigatoriedade de abertura dos sistemas como na Europa, o país já deu passos importantes em direção à nova tecnologia, segundo Taveira. Na ausência de uma regulação específica, ele diz que os bancos brasileiros devem lidar de formas distintas com a inovação. “Alguns devem se abrir mais e outros enfrentarão maior resistência”, afirma o sócio da Quanto, que desenvolveu um internet banking com plataforma aberta para os clientes pessoa jurídica do Banco Rendimento.

Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil foi o primeiro a anunciar a criação de parceria na área de open banking, com o aplicativo ContaAzul. Procurados, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander Brasil e Caixa Econômica Federal não deram entrevista.

A relação dos bancos locais com terceiros que desejam se valer dos dados de seus clientes para oferecer serviços nem sempre é amigável. O aplicativo de finanças pessoais GuiaBolso tem sido alvo constante e chegou a ser processado pelo Bradesco, por supostamente violar a segurança e prejudicar os correntistas. O caso corre em segredo de Justiça.

Apesar das alegadas vantagens, especialistas alertam que a adoção do open banking não está livre de riscos. “Conveniência, velocidade e simplicidade podem vir ao custo de uma maior perda do controle do nosso dinheiro, uma redução na privacidade ou segurança e um mercado mais complexo”, escreve a analista Faith Reynolds, em um relatório encomendado pelo Barclays.

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